Tem um momento na vida de toda mulher que parece silencioso, mas é ensurdecedor. É quando ela se olha no espelho e, pela primeira vez, não vê apenas o rosto cansado ou os traços herdados da família. Ela enxerga a dor escondida atrás do sorriso, as marcas da luta diária, os sonhos que ficaram calados por medo ou costume.
Foi assim com muitas de nós. Crescemos ouvindo que mulher forte é a que aguenta. Que silêncio evita briga. Que grito é falta de respeito — mesmo quando o mundo gritava com a gente. E, por gerações, essa violência foi sendo passada como uma herança amarga, difícil de desfazer.
Mas a boa notícia é que há mulheres, muitas, que decidiram quebrar esse ciclo. Elas se olharam no espelho e, em vez de se esconder, se resgataram. Enxergaram o que sempre esteve lá: uma força que o tempo não apagou, uma coragem que esperava para florescer.
Elas disseram “não” onde antes calavam. Buscaram ajuda, falaram em voz alta, confiaram umas nas outras. Foram mães, filhas, amigas — e, acima de tudo, foram fiéis a si mesmas. Escolheram ser a última geração a carregar a dor que não começou com elas.
Hoje, essas mulheres caminham com a cabeça erguida. Não porque esqueceram o que viveram, mas porque se permitiram recomeçar. E a cada passo que dão, abrem caminho para outras. Porque toda mulher que se liberta leva junto uma multidão.
Essa coluna é para você, que está nesse processo de resgate. Que talvez ainda olhe no espelho com dúvidas, com medos. Saiba que o primeiro passo é se reconhecer. O segundo é acreditar: você não está sozinha. E o terceiro — o mais bonito — é reescrever sua história com a força de quem decidiu ser livre.
Andrineia Gomes é psicanalista e idealizadora do projeto Mulheres e Sua Voz. Depois de se resgatar de si mesma, decidiu dar voz às mulheres que gritavam em silêncio. Acredita que o caminho do conhecimento pode libertar, transformar e abrir novos horizontes para todas aquelas que um dia foram ensinadas a se calar.

