sexta-feira, março 6, 2026
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Fortes demais para sentir?

Desde cedo aprendemos que, para conquistar algo na vida, é preciso ser forte e
inabalável. Que não há espaço para sentir dor, porque a vida é assim mesmo —
uma batalha constante em que só vence quem luta.


Mas esse comportamento, muitas vezes, não nos leva à verdadeira conquista. Em
vez disso, gera um sentimento difícil de nomear. No consultório, recebo pessoas
bem-sucedidas, admiradas por muitos, mas que carregam um vazio que não sabem
explicar, nem expressar.


O psicanalista Donald Winnicott chamava isso de falso self: uma espécie de
armadura emocional que construímos para atender às expectativas externas,
enquanto escondemos quem realmente somos. Ele dizia:


“O falso self resulta de uma defesa contra a angústia e o desamparo. Ele
protege, mas também esconde o self verdadeiro.”


E quanto mais tempo passamos desconectados desse self autêntico, mais distante
ficamos de nós mesmos.


Quando damos voz ao que foi silenciado — às perdas ignoradas, aos términos sem
explicação, às perguntas que nunca foram feitas, às brigas sem fim, às feridas
nunca cuidadas — algo muda. O peso que parecia parte de quem somos,
desaparece.


As dores precisam ser sentidas. Elas fazem parte da nossa história. Precisamos
chorar — seja por tristeza, seja por alegria. Precisamos viver os lutos, para que se
tornem lembranças, e não tristezas eternas.


Negar a dor não nos fortalece. Sentir é o que nos torna inteiros.


“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito
debaixo do céu: tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e
tempo de dançar.”
— Eclesiastes 3:1, 4

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