Em certa repartição pública, uma senhora foi atendida por um serventuário, assistente social, que prestou toda assistência que lhe cabia naquele momento. A mulher, abalada por muitos problemas, após expor seus percalços, foi tomada pela emoção e veio a prantos. Findo o atendimento, deixou a repartição com lágrimas, ocasionadas meramente pela lembrança dos problemas dos quais era acometida. Uma colega do servidor ao ver o contexto na sua forma superficial, ao ver o estado emocional da mulher, comentou com a outra colega que o servidor público “fez a mulher chorar”. A interlocutora, que recebeu a informação distorcida, levou adiante a “fofoca” e a cada receptor da notícia, acrescia-se novas informações inverídicas, até o extremo de dizer que o servidor público teria destratado a atendida, fato que custou o aborrecimento de ter que se explicar ao superior hierárquico.
Os sentidos produzidos pelas palavras vão muito além da metalinguagem dos dicionários. O contexto, a forma de se expressar, o local e até o tom de voz pode influir no entendimento. Um simples vocábulo, sem contextualizá-lo, tem um sentido (isolado), mas dependendo a forma com que se diz, analisando expressões faciais, gesticulações, podem ter significado irônico ou sentido antagônico. Um elogio aparente pode ser uma crítica velada. A “rapariga” que na região Sul é sinônimo de garota, em outras regiões possui sentido pejorativo, tamanha a diversidade da linguagem e culturas. Devemos ser poliglotas de nossa língua e interpretá-la com cautela. No caso em questão, a emoção produzida pela atendida, veio pela invocação da memória, que remeteu aos sofrimentos, que foram relembrados no ato do atendimento. Ou seja, que a atendeu não provocou a tristeza. Mas as “intérpretes” observaram o choro durante a conversa com o atendente e de forma equivocada (e maldosa), fizeram “recortes” do contexto fático e já trataram como se fosse ele o causador.
O modo como se conduz as conversas pode gerar conflitos graves, até agressões ou algo mais sério. O exemplo acima mostra a forma distorcida e até maldosa explanada pela colega, que gerou mal-estar para o rapaz que nada fez de errado. Quantos desafetos, brigas, confrontos, inimizades poderiam ser evitados pelo simples ato de interpretar a verdade.
Em locais de trabalho ou ambiente escolar, pela quantidade de pessoas que frequentam, a diversidade de opiniões é notória. Por isso a importância do filtro do bom senso. Saber ouvir e raciocinar e na dúvida, silencie. Não sejamos o motivo de um conflito, que pode culminar em inimizades, tragédias, rixas. Não há preço que pague a paz, a consciência limpa. Seja motivo de concórdia, refutando toda e quaisquer discórdia consistente nas falas mal dirigidas.
O perigo do mal-entendido
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