
Facções criminosas passaram a usar drones carregados com explosivos em áreas disputadas no Rio de Janeiro. Imagens obtidas pela polícia e registros feitos por moradores mostram ataques que atingiram casas, carros e pessoas. Além disso, os episódios aumentaram o medo entre moradores das comunidades.
A nova estratégia amplia a disputa territorial entre grupos criminosos. Dessa forma, a violência ganhou uma dimensão diferente e passou a representar também uma ameaça vinda do céu.
Em um dos vídeos, moradores percebem a aproximação de um drone e alertam outras pessoas. Logo depois, o equipamento lança um artefato e provoca uma explosão.
Ataques atingem carros e casas
Um dos ataques analisados pela reportagem ocorreu durante o dia. O próprio drone registrou a ação e as imagens mostram o lançamento de um artefato contra um carro onde estariam integrantes de uma facção rival.
Depois da explosão, dois homens correram ao lado do veículo. Um deles ficou ferido. Além disso, moradores registraram marcas de estilhaços na lateral do carro e ferimentos na perna da vítima.
Os ataques também atingiram imóveis. Em uma residência, uma explosão destruiu parte da cozinha e de um quarto. Em outra comunidade, o impacto contra uma árvore provocou a quebra de uma janela.
Assim, moradores que não participam da disputa entre as facções também passaram a enfrentar os riscos dos confrontos. Um dos moradores relatou que os ataques se tornaram frequentes e afetaram a rotina da comunidade.
Drones mudam a rotina das comunidades
Durante quase dois meses, a equipe acompanhou a rotina de comunidades dominadas por organizações criminosas. As imagens mostram homens armados, barricadas, trincheiras e pontos de venda de drogas próximos a áreas residenciais.
Além disso, uma das gravações registrou uma mulher cuidando de um bebê enquanto homens armados circulavam pelo local. Em outra cena, uma festa de aniversário acontecia perto de um homem com um fuzil.
Na semana passada, moradores registraram outro ataque durante uma festa de rua. Segundo os relatos, explosivos lançados por um drone feriram duas crianças e um homem.
A presença dos equipamentos também mudou a rotina dos espaços públicos. Na Favela do Quitungo, na Zona Norte, moradores evitam permanecer em áreas abertas durante a noite.
Da mesma forma, criminosos passaram a deixar alguns locais ao perceber a aproximação de drones. Em algumas comunidades, grupos instalaram coberturas sobre ruas para dificultar ataques vindos do alto.
Segundo o delegado Marcos Mota, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT), essas estruturas ajudam a proteger as comunidades contra ataques aéreos. Entretanto, elas também dificultam o monitoramento realizado pelas forças de segurança.
Disputa entre facções chega ao espaço aéreo
A disputa entre grupos criminosos também envolve equipamentos capazes de detectar drones.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, traficantes passaram a utilizar aparelhos que identificam equipamentos no céu. Além disso, grupos criminosos também recorrem a dispositivos que interferem na comunicação entre o drone e seu operador.
Para Marcos Mota, essa tecnologia pode representar uma vantagem na disputa por território. “A gente está falando aqui de disputa de espaço aéreo”, afirmou o delegado.
Diante desse cenário, as forças de segurança precisam acompanhar a evolução do uso desses equipamentos. Além disso, o delegado defende ações capazes de antecipar novas estratégias das organizações criminosas.
Denúncias sobre drones aumentam
Os registros do Disque Denúncia mostram o crescimento das denúncias relacionadas ao uso de drones por grupos criminosos.
O primeiro relato de um drone equipado com granada surgiu em 2023. Em 2024, o órgão registrou quatro ocorrências.
No ano seguinte, os registros chegaram a 73 denúncias envolvendo traficantes. Além disso, outras 14 denúncias citaram milicianos que, segundo os relatos, também utilizam drones em ações criminosas.
Os números mostram, portanto, que o uso desses equipamentos ganhou espaço na atuação de grupos criminosos.
Riscos chegam pelo céu
O uso de drones com explosivos acrescenta uma nova dimensão à violência provocada pela disputa entre facções no Rio de Janeiro. Agora, além dos confrontos nas ruas, moradores precisam lidar com ataques que podem ocorrer pelo alto.
O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) informou que realiza a gestão do espaço aéreo brasileiro com foco na segurança e na regularidade da navegação. Segundo o órgão, autoridades de segurança pública devem conduzir investigações relacionadas a possíveis crimes.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também informou que a segurança envolvendo drones próximos a aeroportos exige articulação entre diferentes órgãos.
No Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança Pública reconheceu os riscos provocados pelo uso criminoso dos equipamentos. Por isso, a pasta defende uma atuação integrada com o governo federal.
Segundo a secretaria, o governo federal vai destinar drones e equipamentos de detecção para reforçar o trabalho das forças de segurança. Além disso, a pasta criou uma divisão especializada para combater crimes relacionados ao uso de drones.
Assim, a expansão dessa tecnologia entre grupos criminosos coloca as forças de segurança diante de um novo desafio. Enquanto os confrontos continuam nas ruas, moradores também convivem com o risco de ataques que chegam pelo céu.
