Conta a lenda que o Grande Imperador Alexandre, o Grande, certo dia decidiu prestigiar e presentear o filósofo grego Diógenes de Sinope. Para isso, organizou uma comitiva e foi até o local onde o sábio vivia — um barril.
Ao chegar, com toda sua pompa, o poderoso monarca teria dito ao pensador que lhe concederia qualquer coisa que desejasse. Diógenes, então, respondeu apenas que ele se afastasse, pois estava tapando o sol que o aquecia.
Em vez de se irritar com a resposta, o regente aristotélico do mundo conhecido à época voltou-se aos seus homens e os acalmou, afirmando que, se não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.
Muitas interpretações podem surgir dessa parábola. Eu, particularmente, talvez com um cinismo ainda maior que o de Diógenes — embora me refira ao cinismo em sentido pejorativo, e não ao filosófico, ligado à simplicidade dos cães (do grego kynos) —, percebo na atitude do filósofo uma arrogância intelectual exagerada e uma temeridade impressionante.
Diógenes não era cego. Ele viu a comitiva e o poder bélico que se aproximava de seu refúgio e, ainda assim, lançou uma afirmação direta ao homem mais poderoso de sua época, desconsiderando sua condição natural de ser pensante e colocando em risco a própria existência física.
Além disso, ignorou a própria natureza da existência, uma vez que o intelectual ou espiritual não se sustenta sem o material. Ele mesmo vivia em um barril, produzido por alguém — senão por ele, por outro ser pensante capaz de transformar o meio em que vivia.
Em sua simplicidade, Diógenes desconsiderou a universalidade e descartou a empatia, ao não reconhecer os sentimentos que levaram Alexandre àquele gesto de oferecer o melhor que possuía a um homem simples e sábio.
Por si só, o Grande Imperador demonstrou nobreza espiritual ao prestar uma homenagem humilde ao cínico que o confrontava. Alexandre, discípulo de Aristóteles — que pregava valores morais —, revelou, em sua reação, uma sabedoria muito maior do que a lenda costuma destacar.
Demonstrou empatia e sensibilidade ao reconhecer no outro a centelha divina que habita todos os seres.
Outras e mais profundas reflexões podem surgir desse episódio, cuja veracidade considero improvável diante da grandiosidade de seus personagens. Ainda assim, para mim, permanece o contraste entre o ouro e o barro — elementos que, unidos, compõem obras magníficas, antigas e contemporâneas, de imenso valor artístico.
Essas obras despertam em nós o que há de melhor: o reconhecimento do belo no outro, no semelhante, no próximo.
Que Deus dê pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão.

