A recuperação judicial deixou de ser vista apenas como medida extrema para empresas em crise. Atualmente, muitas companhias passaram a utilizar o mecanismo como estratégia de reorganização financeira e preservação das operações.
O movimento ganhou força após o Brasil registrar 2.273 pedidos de recuperação judicial em 2025. O número representa o maior volume da série histórica da Serasa Experian. Além disso, a taxa Selic segue em 14,5% ao ano, segundo o Banco Central, cenário que aumenta a pressão sobre empresas endividadas.
Casos recentes envolvendo Gol, Azul e Oi ampliaram a visibilidade do tema no ambiente corporativo. Dessa forma, a recuperação judicial passou a ser encarada por parte do mercado como instrumento legal para renegociar passivos, reorganizar obrigações e manter atividades econômicas.
Especialista aponta mudança na gestão de crise
Para Marcos Pelozato, advogado, contador e especialista em reestruturação empresarial, a mudança de percepção acompanha uma nova visão sobre gestão de crise no Brasil.
“A recuperação judicial não foi criada para enterrar empresas, mas para preservar operações economicamente viáveis. No entanto, muitos empresários ainda chegam tarde demais, quando a deterioração do caixa já compromete fornecedores, credores e a própria operação”, afirma.
Segundo o especialista, o comportamento do empresariado mudou porque o perfil das crises também se transformou nos últimos anos.
“Hoje o empresário entende que reestruturar não significa necessariamente encerrar atividades. Pelo contrário, em muitos casos significa ganhar tempo, reorganizar compromissos e manter a empresa viva enquanto ajusta a operação”, explica.
Crédito caro aumenta pressão sobre empresas
O crédito mais seletivo, aliado ao elevado custo de capital, reduziu a capacidade de reação de negócios de diferentes portes. Além disso, margens comprimidas dificultam ainda mais o equilíbrio financeiro das empresas.
Embora os casos mais conhecidos envolvam grandes companhias abertas, a pressão também afeta médias empresas. Isso acontece principalmente entre negócios dependentes de capital de giro e financiamento bancário.
Recuperação judicial perde estigma no mercado
A exposição de empresas listadas em bolsa ajudou a reduzir o estigma histórico relacionado à recuperação judicial. Em economias mais maduras, mecanismos semelhantes já são tratados como ferramentas legítimas de reorganização empresarial.
No Brasil, porém, ainda existe a percepção de que recorrer à proteção judicial representa fracasso administrativo. Mesmo assim, essa visão vem mudando gradualmente no ambiente corporativo.
Para Marcos Pelozato, o maior erro ocorre quando a recuperação judicial é utilizada apenas no limite da crise.
“O problema está em tratar a recuperação judicial como último suspiro. Quando usada com planejamento, ela pode preservar empregos, contratos e valor econômico”, avalia.
Médias empresas ainda demoram para reagir
Sem acesso às mesmas estruturas financeiras das grandes corporações, muitas médias empresas acabam adiando decisões estratégicas importantes.
Segundo o especialista, empresários costumam tentar resolver a crise internamente antes de buscar soluções estruturadas.
“O empresário médio normalmente renegocia pontualmente, atrasa compromissos e acredita que o problema será absorvido pela operação. Quando percebe, a crise já contaminou toda a estrutura”, afirma.
Tendência deve continuar em 2026
Especialistas avaliam que a recuperação judicial deve continuar em evidência ao longo de 2026. Isso deve ocorrer principalmente se o ambiente de crédito permanecer restritivo.
Mais do que um mecanismo jurídico, a recuperação judicial passou a ocupar espaço como ferramenta de gestão financeira, reorganização operacional e preservação empresarial.
Sobre Marcos Pelozato
Marcos Pelozato é advogado, contador e empresário com 14 anos de atuação em reestruturação empresarial e recuperação judicial. O especialista presta assessoria estratégica para empresas em crise financeira, com foco em reorganização societária, gestão de passivos e recuperação de negócios.
Além disso, Marcos também atua como conselheiro para advogados e contadores interessados na área de reestruturação empresarial.

