
O tarifaço dos EUA sobre produtos brasileiros surge como um novo fator de preocupação para a economia nacional. Embora o mercado tenha elevado a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 1,90% em 2026, a inflação projetada em 5,09% continua acima da meta e reduz o espaço para uma queda mais rápida da taxa Selic.
Além disso, especialistas avaliam que a proposta norte-americana de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros pode gerar impactos que vão além das exportações. Segundo analistas, a medida tem potencial para pressionar o câmbio, elevar a inflação e aumentar os custos de crédito para empresas e consumidores.
Tarifaço dos EUA sobre produtos brasileiros preocupa mercado
De acordo com André Matos, CEO da MA7 Negócios, o principal risco está nos efeitos indiretos da medida sobre a economia brasileira.
“A proposta tende a reduzir o ingresso de dólares pela balança comercial, pressionando o câmbio. Um real mais fraco aumenta o custo de produtos importados e pode alimentar novas pressões inflacionárias”, afirma.
Por isso, mesmo antes de entrar em vigor, a proposta já influencia as expectativas dos investidores. Consequentemente, o mercado passa a exigir maior prêmio de risco, o que afeta a curva de juros e dificulta a redução do custo do crédito.
Inflação continua limitando cortes da Selic
Embora a projeção para o PIB tenha melhorado, especialistas destacam que o crescimento econômico, por si só, não garante um cenário mais favorável para a política monetária.
Segundo Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, a inflação resistente continua sendo o principal desafio para o Banco Central.
“O crescimento pode mascarar uma pressão inflacionária que obriga o Banco Central a manter uma postura conservadora por mais tempo”, explica.
Da mesma forma, Valdir Piran Jr., CEO da Intra, afirma que a combinação entre atividade econômica resiliente e inflação acima da meta exige cautela na condução da política monetária.
Assim, o mercado já trabalha com a possibilidade de juros elevados por um período mais longo do que o previsto no início do ano.
Crédito pode ficar mais caro para empresas e consumidores
O impacto do tarifaço também preocupa empresas que dependem de financiamento para investir e expandir operações.
Segundo especialistas do mercado financeiro, a combinação entre inflação persistente, dólar mais forte e aumento da percepção de risco tende a elevar os custos de captação.
Além disso, investidores passam a priorizar operações com maior segurança, governança e previsibilidade de fluxo financeiro.
Para Gustavo Assis, CEO da Asset, a qualidade do crédito ganha ainda mais importância em períodos de instabilidade econômica.
“FIDCs e soluções de crédito estruturado ganham relevância porque conectam empresas que precisam de capital a investidores que buscam retorno com análise de risco mais ajustada”, destaca.
Efeitos podem chegar ao consumidor pelo câmbio
Embora a proposta americana tenha como foco o comércio exterior, os reflexos podem atingir diretamente o bolso dos brasileiros.
Isso ocorre porque um câmbio mais valorizado encarece produtos importados, combustíveis, medicamentos, eletrônicos e diversos insumos utilizados pela indústria nacional.
Além disso, as tensões geopolíticas no Oriente Médio continuam pressionando os preços internacionais do petróleo, o que amplia os riscos inflacionários.
Segundo Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos da Pilar Capital, a preocupação atual não está apenas no impacto imediato das tarifas, mas principalmente na incerteza que elas geram para os mercados globais.
Por essa razão, investidores monitoram atentamente as negociações entre Brasil e Estados Unidos e seus possíveis reflexos sobre a economia brasileira.
Juros altos devem permanecer por mais tempo
A maioria dos especialistas consultados concorda que o atual cenário reduz as chances de uma flexibilização acelerada da política monetária.
Enquanto a inflação permanecer acima da meta e o ambiente internacional continuar incerto, o Banco Central tende a manter uma postura mais conservadora.
Dessa forma, empresas e famílias podem enfrentar um período mais longo de juros elevados, com impactos diretos sobre financiamentos, investimentos e consumo.
Para André Matos, o efeito final do tarifaço vai além das exportações.
“Em outras palavras, o tarifaço não muda apenas o comércio exterior. Ele também pode atrasar o alívio dos juros para famílias endividadas e empresas que dependem de crédito para investir”, conclui.

