Especialista alerta para riscos de aquecimento de cabos, curto-circuito e incêndios e defende projetos técnicos antes da instalação de carregadores

O avanço dos carros elétricos no Brasil também aumenta a demanda por pontos de recarga em condomínios. No entanto, a instalação de vários carregadores sem planejamento técnico pode provocar sobrecarga na rede elétrica e elevar o risco de incêndios.
Um levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), realizado em parceria com a Tupi Mobilidade, aponta que o Brasil já ultrapassou 25,4 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga. Além disso, o país ganha, em média, um novo carregador a cada hora.
Para o professor Joni Matos Incheglu, do curso de Engenharia Civil da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), a expansão da eletromobilidade exige atenção especial nos condomínios. Isso porque muitos edifícios foram projetados antes do crescimento da demanda por veículos elétricos.
Vários carregadores podem sobrecarregar a rede
Segundo o especialista, um carregador residencial típico pode representar uma carga significativa para a instalação elétrica de um apartamento. Por isso, quando vários moradores conectam seus veículos ao mesmo tempo, a demanda pode ultrapassar a capacidade da entrada de energia, dos alimentadores e dos quadros elétricos.
O problema se torna ainda mais relevante durante a noite, quando os moradores costumam recarregar os veículos e outros equipamentos da edificação continuam funcionando.
Dessa forma, antes de instalar os carregadores, o condomínio precisa avaliar a capacidade disponível e o impacto da nova demanda sobre toda a infraestrutura elétrica.
Projeto técnico deve avaliar capacidade da edificação
De acordo com a orientação técnica do Sistema Confea/Crea, a instalação deve começar com uma avaliação da carga existente durante um período mínimo de uma semana. A partir desse levantamento, profissionais podem verificar se a estrutura suporta a nova demanda.
Quando a capacidade não é suficiente, existem alternativas. Entre elas, estão o reforço da entrada de energia junto à distribuidora e a utilização de sistemas de gerenciamento de cargas.
Segundo Incheglu, essas soluções devem partir de um estudo técnico que considere as características da edificação, a quantidade de carregadores e a forma de utilização dos equipamentos.
Instalação inadequada aumenta riscos
A ausência de um projeto adequado pode provocar uma série de problemas. Primeiramente, circuitos e quadros de distribuição podem sofrer sobrecarga porque não foram dimensionados para suportar uma nova carga contínua.
Além disso, o aquecimento de cabos e conexões pode degradar o isolamento dos componentes ao longo do tempo. Esse processo pode ocorrer de forma silenciosa e, posteriormente, favorecer falhas elétricas.
Também existe risco de curto-circuito e choque elétrico quando a instalação não conta com os dispositivos de proteção exigidos pelas normas técnicas.
Gestão inteligente ajuda a controlar a demanda
A engenharia também desenvolve soluções para permitir a expansão da recarga com maior segurança. Uma das principais alternativas é a gestão inteligente de cargas, que monitora o consumo do condomínio em tempo real.
O sistema identifica a demanda total da edificação e distribui a potência disponível entre os veículos conectados. Assim, os carregadores utilizam apenas a energia que permanece disponível naquele momento, evitando que a demanda ultrapasse a capacidade máxima do prédio.
Energia solar e baterias são alternativas
Os condomínios também podem adotar outras tecnologias para complementar a infraestrutura de recarga. Entre as possibilidades, estão sistemas compartilhados com medição e rateio automatizados, integração com geração solar fotovoltaica e sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos como BESS.
Esses recursos podem ajudar a administrar o consumo e, no caso das baterias, deslocar parte da utilização de energia para períodos fora dos horários de maior demanda.
Segurança deve acompanhar avanço dos carros elétricos
Para Incheglu, a expansão da frota de veículos elétricos deve continuar. Por isso, os condomínios precisam acompanhar essa transformação sem deixar de lado os critérios de segurança.
“A eletromobilidade veio para ficar. Mas o rigor técnico, a responsabilidade profissional de gestores condominiais e, acima de tudo, a preocupação coletiva com a segurança jamais deve ser deixada em segundo plano. A proteção à vida é a prioridade absoluta e deve prevalecer sobre quaisquer outros interesses”, reforça o professor da UMC.
